Um eléctrico chamado despejo...
Os meus dias corriam como sempre, mais uma vez tudo me escapava por entre os dedos. Apesar dos meus esmerados intentos, novamente a míuda tinha ficado para um capitão de mar com pinta de engatatão de novela venezuelana em vez de ficar para mim. Porque será que acabo sempre por chegar em 2º?! Será do cheiro?! É possível, o uso excessivo de Old Spice parece não resultar ao nível dos rituais de acasalamento, especialmente quando misturado com um odor corporal deveras nefasto. Também a acumulação de nhaca debaixo das unhas parece não vir no topo das preferências femininas. Adiante!
Seguia eu em mais um dia de frustração amorosa quando no meu caminho de todos os dias eu a vi! Estava no eléctrico quando visualizei aquela Marylin dos carris. Ela estava apenas a alguns metros quando despertou a minha atenção. Era linda, loira, um verdadeiro poço de sensualidade que fez despertar um vulcão dentro da minhas calças! O sol brilhava e deixava-me esperançoso de uma vida melhor. Trocámos um olhar fugaz, mas suficiente para sentir a electricidade a crepitar no ar. O meu corpo tremia à medida que um suave arrepio percorria a minha espinha. Não há nada melhor para curar um mal de amor do que uma nova paixão!!!!
Ela caminhou na minha direcção e ao aproximar-se de mim provocou um ligeiro contacto que indiciava que a atracção seria mútua. Vi-a sair na paragem seguinte, seguindo num passo apressado mas extraordinariamente elegante, mas com a certeza de que certamente nos voltariamos a encontrar e que quando essa ocasião se desse, consumariamos a nossa paixão! Segui feliz direito a casa, pensando naquela figura angelical que me fazia pura e simplesmente esquecer todos os problemas e preocupações que tinha, como aquele pêlo encravado na nádega direita ou a renda da casa que ainda estava por pagar.
Antes de chegar a casa fui resolver este último problema e dirigi-me a casa da minha senhoria com o intuito de saldar contas. E foi então que o meu mundo desabou! Ao jogar a mão ao bolso do casaco para retirar a carteira e efectuar o pagamento, eis que eu verifico que a carteira não estava lá!! Procurei freneticamente em tudo o que era bolso e nada, ela tinha-se sumido! Lembrei-me então do meu encontro casual no eléctrico, apenas para concluir que aquela pin-up do 18 prá Ajuda não via em mim o amor, mas sim uma oportunidade para surripiar mais uma carteira recheada que nem um perú de natal. Tentei explicar à minha senhoria o que se havia passado, que pagaria os meus 75€ de renda assim que conseguisse vender mais alguns pensos lá no semáforo em que trabalho. Mas ela não me ouviu, pura e simplesmente ignorou todas as minhas razões e mandou-me tirar tudo o que tinha no quarto, incluindo a Berenice, a minha barata de estimação, até às 3 tarde, pois ela já tinha um acordo com um proxeneta dos Anjos para que ele usasse o meu quartito como ninho de amor para as suas meninas e com aquilo a renda era sempre certa!
E assim lá fui eu, o novo sem-abrigo da cidade apenas por ter entrado num eléctrico chamado despejo!
Que sirva de lição a este tonto apaixonado, louco e despejado, apenas porque quer amar.
Despeço-me com amizade. ET

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