terça-feira, maio 03, 2005

Histórias de Vidas...

Constantino era um homem feliz. Pelo menos na maioria das ocasiões poderia ser assim considerado. A sua felicidade provinha maioritariamente de coisas simples como as sandes de coirato ou a revista Gina. Sempre considerou que com a simplicidade vem a felicidade e nunca almejou a grandes feitos. Pouco bastava para arrancar um sorriso da sua face, ganhando o dia quando observava um casal de cães enganchados após a prática do coito.
Contudo, como qualquer outro ser humano, Constantino sentia por vezes que havia um qualquer vazio na sua vida. Tinha momentos de nostalgia, em que experimentava a necessidade de ser amado para ser feliz, não lhe chegando as diárias ocorrências estapafúrdias que tanto prezava. Mas Constantino nunca foi um animal social. Sendo verdade que conservava um vasto grupo de amigos que muito o apreciavam (como os seus amigos dos AA) sempre apresentou algumas dificuldades no relacionamento com elementos do sexo oposto. Apresentava algumas características físicas que repugnavam a maioria das mulheres, como o tom esverdeado da dentição associado a um problema estomacal que lhe incutia um mau hálito permanente, uma vista a olhar pra ontem que o tornava ligeiramente estrábico e um 6º dedo na mão esquerda que saía da zona do indicador fazendo-o assemelhar-se a uma espécie de nativo de Plutão. A generalidade das mulheres ignorava-o por isto, nunca chegando a aperceber-se da sua riqueza interior e ele próprio assumia uma postura retraída tendo dificuldades em libertar-se. Os seus momentos de paixão, obtinha-os geralmente em bordéis de qualidade dúbia onde alguns euros amealhados no seu trabalho de almeida apagavam todos os seus defeitos físicos.
Mas um dia Constantino conheceu alguém especial. Viu-a no metro onde ela cantava graciosamente- "Tenha a bondade de me auxiliar" . E ele notou algo de diferente naquela pessoa que trazia consigo um tupperware com algumas moedas. Primeiramente sentiu o seu cheiro, deveras peculiar e indicador de escassez de água na sua residência mas acima de tudo apresentava um pormenor que o apaixonava, era cega! A cegueira desta mulher poderia ser o seu escape, ela apenas conheceria o bom que havia em si nunca lhe apontando as suas muitas deficiências físicas. Seu nome era Joaquina e habitava numa suite de cartão ali prós lados dos Anjos e que esplendor de mulher era ela. Constantino conheceu-a e amou-a. Deixando-se levar pela descoberta de alguém que não o via como o anormal que era perdeu-se de paixão. Embrenhou-se em longas tardes e noites de conquista onde soltava todo o romântico que havia em si. Bebiam muito e era nos vapores do alcoól que toda a sua verborreia apaixonada se libertava (já diziam os romanos que no vinho, a verdade).
Mas Constantino detectou um padrão, a mulher que com o grão na asa era só amor, transformava-se em alguém distante quando sóbria. Óh mistério de mulher!!! Constantino dúvidava se o amor de Joaquina era ele ou as garrafas de Biqueirão que ele constantemente fornecia! E um dia a sua dúvida foi-se como um copo de três! Ao chegar mais uma vez junto ao palácio de celulose encontrou Joaquina a ler em Braille o corpo de um africano!
Ainda meio atordoado, Constantino partiu apressadamente tendo como rumo a incerteza e a depressão, fazendo juras a si mesmo de nunca mais amar!!!! Descobriu mais tarde que o seu tintol foi trocado por amêndoa amarga de São-Tomé!
Foi-se amargurado e pensando que jámais um homem compreenderá alguma mulher. Decidiu mudar o seu rumo e encontrar novas paragens, onde um começo do nada seria um mar de oportunidades.
Achou-se nas Berlengas onde ainda hoje permanece na sua felicidade simples, rodeado de milhares de gaivotas que o amam e cujas cloacas dão pró gasto.
Tavez um dia volte, mas certo de que, tal como nós, as mulheres são algo que transcendem tudo o que é compreensível.
Quem sabe se não achará novamente no éter a capacidade de expressar paixões , esperançoso apenas que tudo não se apague na ressaca.

Despeço-me com amizade. ET