Hora de ponta
Há coincidências do caralho! E algumas delas fazem com que o nosso dia decorra de forma verdadeiramente fantástica, já que nos proporcionam momentos de puro deleite.
É comum nas grandes cidades acontecer um fenómeno provocado por um fluxo excessivo de pessoas numa determinada hora; a chamada hora de ponta. A hora de ponta ocorre normalmente duas vezes ao dia, uma primeira de manhã quando toda a gente se dirige ao local de trabalho e uma segunda ao final da tarde, por altura do regresso a casa. Eu devo confessar que umas destas alturas está no topo das minhas preferências diárias juntamente com o momento em que, ao acordar, eu afago carinhosamente os meus testículos e verifico que eles continuam por lá depois de mais uma noite, não tendo partido para qualquer outro local por vontade própria nem acabado na boca ensanguentada de uma qualquer prostituta mais furiosa por causa da parca higiene. Ora, o meu outro momento predilecto ocorre precisamente durante a hora de ponta do final do dia, devido a uma das tais coincidências. Então não é que a hora de ponta das 5 da tarde coincide com a minha hora de ponta!?
É verdade, é por volta das 5 da tarde que o meu fluxo sanguíneo se dirige em massa para a região do baixo ventre, causando em mim um período duradouro de enorme ponta. E, felicidade das felicidades, à hora de ponta eu tenho o prazer de ter de andar em transportes públicos completamente apinhados de gente, munido da minha assombrosa erecção crepuscular! E não há melhor altura para eu me dedicar a um dos meus desportos preferidos do Mundo: a roçadela discreta.
Este desporto é quase secular em Portugal e tem uma extensa legião de adeptos que o praticam com afinco todos os dias, quer seja no metro, no eléctrico ou no autocarro, já que é extremamente simples e muito compensador. Para o praticar basta apenas boa disposição, uma descrição nata e uma séria apetência para o esfreganço forçado. Para a sua prática é necessária a ocupação de um espaço estratégico no transporte, que permite um contacto aparentemente leviano com a rectaguarda das senhoras que passem por nós. Outra modalidade passa pela perseguição de um alvo específico ao longo do veículo, sendo que esta versão apenas está ao alcace dos mais experientes e destemidos, pois envolve um maior risco de recepção de cotovelada na barriga, pisanço no pé ou mesmo estalada na cara.
Devido a um problema de índole claustrofóbica, a utilização de roupa interior nem sempre faz parte dos meus planos, optando eu muitas vezes pelo chamado estilo à italiana. É esta forma de estar na vida, associada à minha pontual tusa, que me faz ser um feroz e respeitado praticante de roçadela discreta. Sou conhecido pela minha argúcia, sendo um praticante que ocupa com toda a naturalidade e sagacidade a porta de saída, provocando contactos constantes com tudo o que é peida roliça! Também a minha codícia e persitência são lendárias, estando nos anais deste desporto o dia em que eu percorri quase toda a linha azul (fui até alfornelos) cravado que nem uma lapa às costas de uma senhora que apresentava um indescritível nadegueiro, sem levantar a mínima suspeita. Nesse dia passei a ser cohecido como o arquitecto do metro, em homenagem ao mestre da traseira, o senhor Tomás!
Este desporto tem contudo coisas chatas e momentos menos bons. É sempre preciso estar muito atento pois por vezes o contacto com homens pode ser uma realidade, e para um atleta de alta competição a experiência pode ser traumática e de difícil superação. Já me esquivei a algumas balas e todos os dias rezo para que continue a conseguir desviar-me a tempo do saco de pão do Viegas, um calceteiro da Brandoa que veste calças 62 cuja passagem provoca normalmente danos apocalípticos nos praticantes desta modalidade, visto que o contacto é quase inevitável.
Recomendo a toda a gente que tem de passar pelas agruras da hora de ponta que faça como eu e que junte as duas pontas, transformando uma hora do dia que normalmente é tortuosa num momento de admirável bem-estar.
Despeço-me com amizade. ET

1 Comments:
Acho que vou começar a treinar já amanhã. Quanto ao estilo italiano, eu uso outra expressão: "andar à cowboy". Abraços e viva o bom humor.
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